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Lilian Mitsunaga: A tradução das letras

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Lilian Mitsunaga: A tradução das letras

Há quem tenha o nome na capa. E há quem não apareça nem nas letras pequenas dos créditos — e sem quem o livro não existiria.

Há pessoas que têm seu nome na capa dos livros. Pessoas que tratamos com o mesmo respeito que temos por videntes, oráculos e bruxas, porque é disso que se trata (há aqueles que não têm esse respeito, pobres desgraçados ignorantes).

E há aquelas pessoas que às vezes não têm seu nome nem nas letras pequenas dos créditos. Mas são essas pessoas que ajudam as visões a tomarem forma e as profecias a se realizarem. São as doulas e parteiras que orientam as mães e ajudam os bebês a nascer, as pessoas que ajudam aquelas crianças a desenvolver seu potencial. Cada livro tem dezenas, às vezes centenas, dessas pessoas em torno dele. São revisoras, tradutoras, arte-finalistas, produtoras gráficas, divulgadoras, livreiras, organizadoras de eventos...

Há, claro, nós, os editores. Vários de nós, pavões que se pretendem mais importantes que as autoras. Mas a maioria dessas pessoas que ajudam a fazer a existência dos livros é muito mais discreta.

Uma biblioteca que tivesse apenas livros que tiveram a participação da Lilian Mitsunaga seria provavelmente a maior biblioteca de quadrinhos do Brasil. Das toneladas de gibis da Marvel aos quadrinhos de Robert Crumb, do Spirit, de Will Eisner, à Anarcoma, de Nazário. E não apenas traduções! São da Lilian, por exemplo, as letras de Filho do Norte, o novo livro de André Toral.

E se a importância da Lilian não é mais visível é justamente porque ela desenvolveu a arte da invisibilidade. Assim como um tradutor de gênio faz você esquecer que lê uma tradução, a Lilian deu aos leitores brasileiros a chance de viver os livros como seus autores imaginaram. Falo como editor: vários livros decidi publicar porque sabia que podia contar com a Lilian para fazer as letras. Sem ela, talvez eu tivesse desistido em vários casos.

Por tudo isso, essa homenagem que a Bienal de Curitiba faz à Lilian não é apenas muito justa, mas também um gesto belíssimo que homenageia trabalhadores e trabalhadoras dos quadrinhos.

Quem escreveu · Autor da Veneta

Rogério de Campos

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