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Subverter a ordem imposta: Todo o poder às putas!

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Subverter a ordem imposta: Todo o poder às putas!

O Carnaval como ritual de inversão — e a ala inteira que a Porto da Pedra dedicou ao Putafeminista.

O Carnaval muito mais que espetáculo e festa, é espaço de resistência e cultura. Espaço onde a história é contada e recontada, muitas vezes a partir de uma visão menos óbvia que nos livros oficiais. Espaço político, de crítica e exaltação muitas vezes daquilo que merece ser e não é exaltado no resto do ano.

Alguns antropólogos se referem ao Carnaval como um “ritual de inversão”, uma festa que permite temporariamente a subversão da hierarquia e das normas sociais.  Eu, que não sou antropóloga, fiquei pensando no tanto que o enredo da Unidos da Porto da Pedra deste ano assumiu com excelência esse caráter transgressor e subversivo do Carnaval,  ao tornar homenageadas aquelas que historicamente são mulheres perseguidas,  estigmatizadas, lidas como a escória da sociedade: as prostitutas.

O enredo, fruto de uma pesquisa muito dedicada do carnavalesco Mauro Quintaes junto ao movimento organizado de trabalhadoras sexuais,  trazia muitas referências à história da atividade no Brasil desde a chegada das polacas,  passando por referências a lugares históricos como a Vila Mimosa e exaltando as conquistas e as fundadoras do movimento organizado no Brasil,  nas figuras de Gabriela Leite e Lourdes Barreto.

O Putafeminista, livro que publiquei pela editora Veneta em 2018, estava lá, com uma ala inteira dedicada a ele. As fantasias levavam impressa a capa do livro, os foliões e foliãs levavam nas mãos uma réplica da capa, em tamanho bem maior, e animados cantavam o samba enredo que falava das nossas lutas, nossas famílias,  nossas dificuldades e vitórias.

Quando uma escritora ocupa o carro alegórico, quando seu nome ecoa na concentração, algo se rearranja na história cultural do país. Quando essa escritora, ainda por cima, escreve a partir da margem, e sobre um tema que essa sociedade prefere ignorar, acontece brilhantemente este “ritual de inversão”.

Eu tive a honra de fazer o discurso de abertura do desfile, espaço tradicionalmente reservado ao presidente da escola. No meu discurso,  digo que viemos mostrar quem somos a essa sociedade que nos alimenta com fartura mas não nos quer à mesa. Termino minha fala com o grito “todo, todo, todo o poder às putas”, que traz em si também essa ideia de inversão, de subversão da ordem, trazendo ao poder às putas, a parcela mais hostilizada da sociedade - todo o poder é nosso por uma noite, ali na avenida.

Quem escreveu · Autor da Veneta

Monique Prada

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