Mulher sem-teto, migrante nordestina, mãe de oito filhos e sobrevivente de violência doméstica, ela ainda encontra forças para, há três décadas, lutar pelo direito de que pessoas pobres tenham suas casas.
Carmen é da escola de Maria Filipa, mulher negra como ela e parte essencial da Guerra de Independência da Bahia. Também ombreia com Acotirene, a matriarca do Quilombo de Palmares, e com Luiza Mahin, sua conterrânea, que organizou levantes de escravizados.
Assim como o presidente Lula — que se insurgiu contra a fome, à sua maneira, matriculando-se numa escola-oficina para formar operários —, Carmen rebelou-se contra a opressão. E foi à luta por sua escola. Não uma escola idílica, dessas que prometem desenvolver criatividade e liderança, como apregoam algumas das mais caras e conceituadas. Mas escola-escola. Ela tomou gosto pela matemática graças à pedagogia estrita de uma professora negra.
Carmen é gente que recusou a estatística e mostrou que a criatividade pode inventar vida sobre o solo calcinado da estupidez racista-capitalista-machista.
Ela não dá respostas. Ela expõe o problema. Porque carrega no espírito, na prole e no corpo dores, delícias e o destino de ser um espírito livre. Já sofreu, se arriscou, sangrou e amou demais.
Mas também construiu, ensinou e ocupou o lugar que é de direito de Carmens, Joões, Marias e quem mais trabalhe, lute e ame na maior cidade do país: o MSTC, movimento por moradia que ela lidera e que ajudou a dar um teto para mais de 3 mil famílias.
Em trinta anos de luta — também pelo direito à cultura, ao trabalho e à própria cidade —, enfrentou uma máquina de fazer dinheiro operada por governos, empresários e parte substancial da sociedade. Sofreu as mais humilhantes perseguições. Viu sua família ser supliciada. Quase sucumbiu. Mas sacodiu a poeira, reuniu as forças aliadas — que também são muitas — e renasceu, feito uma fênix, infensa à burrice do fascismo.
Ela não é do choro. É do Carnaval. Samba, rebola e rola, mesmo quando a coisa está feia. Ela é a essência de uma força ancestral que põe as coisas nos termos em que elas devem transitar: a luta da vida contra a morte.
Carmen está do lado da vida. E da vida coletiva, a que importa.
É por isso que essa mulher é imprescindível.
